Quando conto que ela ainda faz umas embaixadinhas (tá certo que são 2 ou 3...) ninguém acredita. Ela foi uma jovem à frente do seu tempo. Gostava de bater bola e jogar queimada. Fugiu do matrimônio, mas como não era uma opção, casou (ainda bem né). Sempre me aconselhou a não casar. Depois que eu casei, a não ter filhos. Depois que a Juju nasceu, a não ter MAIS filhos. E agora que tenho as duas, ela já não fala mais nada... deve ter desistido de mim, neta desobediente.
Hoje ela tem 93 anos e permanece muito lúcida. Tem o mesmo físico franzino e o jeitinho agitado de sempre. Até pouco tempo atrás, subia uma ladeira pra pegar ônibus e ir ao clube de poesia japonesa. Ela é a mais velha do grupo. Me lembro dela dizendo que todos os seus amigos estavam morrendo, isso há dez anos. Hoje ela não faz mais este tipo de comentário, mas continua falante e sorridente, sempre tem alguma coisa pra dizer ou um motivo pra rir.
Ultimamente ela tem dado muita risada dela mesma. Outro dia foi em casa, tirou os sapatos na beiradinha do tapete e sentou no sofá. Aí reparei no que parecia um pedaço de papel dentro do sapato... Eram duas etiquetas enormes "BATIAN" (em português e hiraganá). Não sei por quê ela identificou os próprios sapatos, pois quando perguntei o que era aquilo, ela simplesmente riu.

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